domingo, 5 de abril de 2015

Até Quando a Frugalidade Vale a Pena?

Esse post foi publicado originalmente no antigo Blog do Corey e não necessariamente representa a atual opinião do autor.

O começo da minha educação financeira foi através dos livros do Cerbasi, de lá foi um pulo pra achar mais material na internet e dentro esse material a tecla da frugalidade é batida até a exaustão. Eu mesmo me considero uma pessoa frugal, mas estou sempre me perguntando: qual o limite pra frugalidade? Até quando ela vale a pena?

Ele é definitivamente o cara! Mas definitivamente
não quero a vida dele!
Vejam o exemplo do Mr Money Mustache, o cara se aposentou com 30 anos, hoje está com 39, mais rico do que nunca. Toda sua vida foi baseada na frugalidade, por viver como um universitário (dividindo casas, andando de bicicleta, cozinhando macarrão com atum) mesmo tendo um emprego de engenheiro, o resumo é que ele conseguiu levantar um patrimônio incrível em pouco tempo. Admiro pracaraleo esse cara, porém, a vida dele não é pra mim. Jamais deixaria de tomar banho ou lavar roupas pra salvar alguns trocados. Não moro (ainda) nos EUA onde é possível comprar uma casa top com pouco dinheiro, onde existe segurança e as casas não tem muros mesmo nos bairros mais pobres, onde as ruas são bike friendly (se você acha que as famigeradas ciclofaixas do Haddad são bike friendly, meu amigo, você não deve saber nem quantas rodas uma bicicleta tem, sem contar o relevo de São Paulo que também não ajuda), onde o sistema tributário embora complexo é justo, onde tudo é extremamente mais barato e com melhor qualidade que aqui, onde os serviços públicos funcionam... Enfim, eu não moro no Colorado, eu moro em São Paulo, uma cidade fantástica porém repleta de problemas que custam dinheiro, muito dinheiro pra serem resolvidos.

Desigualdade? Sim! Mas nem por isso eu quero
morar do lado esquerdo...
Eu poderia morar no meu apartamento, quitado, de tamanho suficiente e totalmente funcional a um custo baixíssimo (impostos e condomínio), mas ele está localizado na periferia, longe das minhas empresas e principalmente num lugar com a população digamos (pra ser politicamente correto, eca), pouco amigável. Desculpe, não consigo morar perto de gente barraqueira, barulhenta, criminosa, sem noção entre outros adjetivos. Se você consegue tolerar isso em prol de economizar uma grana, ótimo! Fico muito feliz por você, eu gostaria de ter tal qualidade, mas não tenho. Cresci numa região que foi apodrecendo aos poucos, quando eu era criança o lugar era pobre porém amigável, vizinhança simples porém gente boa. Hoje nem meu pai quer passar perto de lá, ano passado ele se mudou após mais de 30 anos, não aguentou a bagunça. Então, pra fugir disso e tentar ter uma vida mais segura e calma, pago aluguel caro num micro-apê localizado num bairro mais nobre, moro num típico apartamento de executivo classe média-alta de São Paulo, com decoração clean porém moderna, futilidades, frescuras, porém seguro e confortável. Aqui não tem gritaria de morador, nunca vi um carro de polícia nas áreas internas nem pinos de cocaína e cachimbo de crack. Frugalidade fail em prol do meu conforto e paz de espírito.

Carro, o eterno sugador de recursos. Um passivão de metal. Como eu gostaria de não precisar ter carro (até falei sobre isso no começo do blog), mas infelizmente ele é um mal necessário. Tenho na minha cabeça que carro deve ser seguro, confortável de maneira a minimizar os problemas do trânsito diário e principalmente robusto econômico. Sou defensor do carro zero, acho que a melhor opção é comprar um carro bom zero, dentro das suas necessidades e casar com ele durante ao menos 10 anos. Porém eu mesmo não faço isso porque tenho uma outra regra em relação a carro: não pago mais de 45k num carro (era 30k, mas tive que subir). Como não abro mão de itens de segurança e conforto como air bag, abs, ar condicionado e câmbio automático; sou obrigado a comprar carros usados. Mais uma vez a frugalidade vai pro ralo, não dá pra andar de QQ!!! Não acho possível ter uma vida decente dentro de um carro sem ar condicionado e direção hidráulica em pleno janeiro as 15h na Paulista. Também não acho legal pegar uma estrada com um carro sem ABS e Air Bag. Frugalidade fail again!

Produtos de qualidade. Entre dois produtos de marcas, preços e qualidades diferentes eu sempre tenho a tendência de comprar o mais caro desde que a qualidade compense. Um exemplo tosco: café. Só compro café Pilão porque embora mais caro que a maioria, tem qualidade melhor. Por outro lado minha frugalidade não me deixa comprar cafés gourmet que na prática não possuem uma qualidade superior que justifique o preço. O mesmo pra vinhos, gosto dos sul-americanos de entrada, os chilenos na faixa de 20 conto costumam ser ótimos. Não pago mais de 25 numa garrafa de vinho, mas também não deixo de tomar vinho pra economizar. Não deixo de tomar meu bourbom, cerveja pouco mais cara como Heineken e Stela Artois, fumar um charuto bom (não compro mais cubanos, só nacionais ou de outros países do caribe, boicote a tudo da ilha do Fidel!!!). Compro carnes de primeira, as de segunda são boas, mas costumam render menos, então acho que não compensa. O mesmo pra frutas e legumes, prefiro lugares mais limpos e com produtos melhores, mesmo que isso signifique pagar mais caro. Gasolina só em posto conhecido (nesse caso economizo porque abasteço nos postos de supermercados). O que quero dizer nesse parágrafo é que não sou frugal a ponto de deixar de consumir produtos que gosto em prol de economizar dinheiro, também não diminuo a qualidade pra salvar alguns trocados.

Não fico miguelando gasolina, se está calor ligo o ar, dane-se que o carro vai consumir mais (carros com motores acima de 1.8 nem sentem essa diferença), o mesmo em casa, o ar ficou ligado janeiro inteiro, a conta de luz foi 200 pilas. Dane-se, paguei com gosto, cada real me deixou menos suado e mais confortável, fez minhas transas com a esposa mais intensas, rsrs! Vou nos restaurantes que gosto, independente do preço, porém não consigo entender como alguém possa gastar mais de 150, 180 conto numa refeição pra casal. Não acho que exista o que justifique esse preço, não acredito que exista comida tão especial e gostosa que possa ser tão cara. Também não como fora todo dia, levo marmita pra loja, nada a ver com economia e sim com a qualidade do alimento. Já fui no Fogo de Chão, é excelente, mas troco sem o menor problema por outra churrascaria perto de uma das lojas que é menos da metade do preço. Quando viajo como sempre a mesma coisa, por exemplo frango grelhado ou seu equivalente regional (todo mundo come frango), como nos fast foods da vida sem o menor pudor, não tenho o menor interesse em conhecer a cozinha regional, isso não me atrai! Economizo comendo fast food? Sim, mas não faço isso pela economia, faço porque coloco segurança de comer o que conheço na frente de "descobrir novos sabores", sou chato pra caramba pra comer, não gosto de um monte de coisas, logo prefiro não arriscar. Mais uma vez: não é o dinheiro, é a qualidade do produto e a qualidade de vida que ele proporciona, a frugalidade deve ser natural, não forçada.

May I have a number 1, no onions, no pickles, a regular Pepper
and an apple pie... Yes, large, please. To go. Get the change!
Vejam o Buffett, muitos aqui já leram sua biografia (eu inclusive, e recomendo) e sabem que ele é um cara extremamente frugal. Sua comida preferida é hamburger com Pepsi, usa ternos comprados na JC Penney e troca seu Cadillac a cada 10 anos (lembre-se que um Cadillac nos EUA custa 30 salários mínimos, algo como um QQ aqui no Brasil), detesta reuniões cheias de formalidades, etc. Porém ele não é nem um pouco frugal no que diz respeito a amizades, seus amigos são presidentes de empresas, Bill Gates é seu parceiro de filantropia, ele conversa com caras muito fodas todos os dias. A frugalidade do Buffett é na minha opinião a frugalidade certa: ele não come Mc Donalds pra economizar, ele come porque gosta, ou seja, é algo natural, não é porque ele é podre de rico que será obrigado a comer somente caviar. Não sou rico, mas tenho condições de pagar por uma moradia num lugar agradável, então por que não fazer isso? Por outro lado detesto juntar tralha em casa, eu poderia ter um monte de tranqueiras que a maioria das pessoas da minha idade e condições financeiras tem: adega climatizada, maquininhas de cozinha diversas, TV 50", mas não tenho! Não tenho nada disso porque não são importantes pra mim. Prefiro ter uma TV 14" de tubo e morar no 25º andar de um prédio numa região nobre que ter uma super-mega-ultra-foda TV 3D super full HD e morar no meu apê lá na quebrada...

Tenho um cliente que também é comerciante. É um cara simplão de tudo, migrante, chegou em São Paulo fudido e fez um pequeno império, mora numa casinha simples com a esposa (os filhos já casaram), usa roupas também simples, celular de flip de 5 anos atrás, barba por fazer... É aquele cara que se você vê na rua não dá nada, jamais vai imaginar que é dono de mais de 10 imóveis de aluguel. Não é mão de vaca, está sempre viajando dentro do país, ajuda a molecada da vila patrocinando o time de futebol, formou todos os filhos "dotô", mas é uma pessoa simples. Agora uma coisa que ele não é nada simples é com carro: troca de carro a cada 6 meses, sempre está com o lançamento mais quente do mercado. Aí você vai dizer: ahh, ele torra dinheiro trocando de carro a cada 6 meses, perde uma fortuna todo ano só com esse capricho... Verdade! Porém é o que ele gosta, ele perde dinheiro com carro, mas deixa de perder com outras: seus filhos estão todos estabilizados (não sustenta ninguém), sua casa é pequena e simples, não torra grana no shopping comprando roupas, jóias pra "véia" e gadgets... A frugalidade dele é algo natural!

Sei que muitos leitores do blog são adeptos da frugalidade extrema. Sinceramente, eu não os critico, não acho que estão errados, muito pelo contrário. Se isso é sustentável na realidade de vida deles, ótimo, que assim seja, mas esse modelo não serve pra todos, assim como modelos em geral não servem pra todos, cada um deve achar seu caminho. Eu realmente acredito que abrir mão da frugalidade em certas coisas me ajudou a ganhar mais dinheiro. Acredito 100% que somos aquilo que nos rodeia, sempre que dou um passo em direção a algo melhor (que custará dinheiro) como uma moradia melhor, um carro melhor, morar num bairro melhor, isso me abre a cabeça e as vezes me dá oportunidade de crescimento, de conhecer outras pessoas, novas ideias, novos negócios... Vejam essa minha postagem: http://coreyinvestidor.blogspot.com.br/2014/04/um-tranco-pra-sair-da-zona-de-conforto.html, nela explico como frequentar lugares caros, com pessoas sofisticadas mudaram minha vida pra melhor.

 E você, o que pensa a respeito da frugalidade? É adepto da frugalidade extrema? Já mudou de opinião sobre esse tema?

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